A quimérica célula Car-t

A quimérica célula Car-t

 

Você se lembra da notícia, certamente. Se já era oncológico à época, recorda especialmente a esperança que ela trouxe para todos os pacientes. Em 9 de setembro de 2019, no Hospital das Clínicas da de Ribeirão Preto, um aposentado de 62 anos em estágio terminal de câncer foi submetido a um tratamento inovador. Em menos de 20 dias, todos os seus tumores sumiram. Em 12 de outubro, ele teve alta, curado de um linfoma não-Hodgkin de células B. Não havia mais traço dele em seu organismo.

O milagre operado no mineiro Vamberto Luiz de Castro, esse tratamento fulminante que o salvou, atende pelo nome de Célula CAR-T. “CAR é um acrônimo em inglês para chimeric antigen receptor (em português, receptor quimérico de antígeno)”, explica uma detalhada página no portal do A.C.Camargo. “O T refere-se ao linfócito T, um tipo de célula do sistema imunológico que consegue reconhecer antígenos existentes na superfície celular de agentes externos ou internos infecciosos e de tumores”. Esse linfócito é modificado geneticamente, em laboratório, para produzir anticorpos que combatem os elementos invasores. Quem atua sobre o câncer, portanto, é o próprio sistema de defesa imunológica do paciente.

É a vitória definitiva contra o câncer! — entusiasmam-se todos que sabem da história. Sonham com uma cura tão rápida quanto a de Vamberto. Mas vamos devagar com a ampola. Por enquanto, o tratamento é altamente resolutivo para os cânceres de sangue, embora seja promissor para outros tipos, que ainda estão em pesquisa. Ele também é extremamente caro, o que ainda dificulta a sua massificação na rede privada de saúde e no SUS. Foi o que aprendi numa conversa com o Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas, a área do nosso hospital que já trabalha nessa fronteira do conhecimento oncológico.

Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas
Na terapia CART-T, a célula reprogramada em laboratório que é infundida no paciente precisa ter um alvo para funcionar. É um alvo terapêutico muito específico, um antígeno. No sangue, esse antígeno fica na superfície das células, é facilmente encontrável
Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas

“Já em outros tumores, o acesso ao alvo é mais difícil. Podem ser até vários alvos, que exigem tratamentos combinados. A pesquisa ainda não chegou até lá.”, complementa do doutor.

Até o momento, portanto, são elegíveis para tratamento com Células CAR-T somente esses tipos de tumor: 

  • Linfoma Não Hodgkin Difuso de Grandes Células B, 
  • Linfoma Folicular, 
  • Leucemia Linfoblástica Aguda B (LLA-B), 
  • Mieloma Múltiplo no cenário recidivado ou refratário da doença, 
  • Transplante de Medula para paciente com Mieloma Múltiplo, 
  • Transplante de Medula para paciente com Linfoma 
  • Transplante de Medula para paciente com Leucemia Aguda. 

Se você se reconhece nessa lista, os detalhes sobre como apresentar um caso para análise também estão aqui.

Desde 2022, o A.C.Camargo já fez 27 infusões de células CAR-T. Nove delas, em pacientes com mieloma múltiplo, que são estudados na Pesquisa Clínica. Outras 18 foram comerciais, em pacientes que tiveram o tratamento custeado por planos de saúde ou pagaram por ele. E é um dinheirão que ele custa, porque a reprogramação genética do linfócito T é quase toda feita no exterior, em laboratórios de alta complexidade. Apenas a Universidade de São Paulo e o Hospital Albert Einstein já fazem isso no Brasil, em escala limitada. O A.C.Camargo, ainda não. “É um processo muito complexo, que exige maquinário e estrutura muito específicos, de custo bem alto”, diz o Dr. Jayr. “Ainda não temos condições de fazer”.

Colher o material para iniciar o processo é simples. Espeta-se um cateter no braço do paciente e o fluxo sanguíneo passa por um equipamento de aférese, que separa os componentes do sangue. Daí para a frente, tudo fica mais complexo. As células T são enviadas para laboratórios nos Estados Unidos ou Europa. Lá elas são reprogramadas geneticamente e tornam-se um remédio pessoal e intransferível. Servem apenas àquele paciente de quem foram colhidas. O remédio então é inoculado e o restante do processo é esperar que células modificadas combatam as cancerígenas, até o fim da peleia.

O tempo do tratamento gira em torno de um ano. Os primeiros 4 meses são de luta para o plano de saúde autorizar, na embromation protocolar. Autorizado o procedimento, o material é coletado e enviado ao exterior. Enquanto isso, o paciente entra numa “terapia-ponte” de um a dois meses, com o objetivo de reduzir ao máximo as células cancerosas em seu sangue. “Se você consegue reduzir o volume da doença, os resultados da CAR-T são comprovadamente melhores”, explica o Dr. Jayr. Quando as células T voltam reprogramadas, são infundidas no paciente numa única aplicação. Faz-se uma primeira avaliação dos resultados em 3 meses e uma segunda em 6. Aí já não deve ter restado célula ruim para contar a história.

Mas, e o custo? 

O tratamento não é extremamente caro, um dinheirão? Se você for bilionário, vai nem olhar para a conta, vai pagar com pix. Milionário já faz cálculos para ver se dá para encarar. E os mortais comuns rezam para não serem glosados pelo plano de saúde. Porque as valentes e eficazes celulinhas CAR-T custam entre US$ 350 mil e US$ 400 mil para salvar o freguês, ou R$ 2 milhões a R$ 2,5 milhões.

“O valor é bem alto”, reconhece o Dr. Jayr. “Mas ele pode ser equivalente ao de outros tratamentos de imunoterapia, que não são feitos por infusão única, são continuados. A imunoterapia com anticorpo bi-específico, por exemplo, pode custar R$ 50 mil por sessão e a duração do tratamento é imprevisível, depende da resposta do paciente. No final das contas, ela pode sair tão cara quanto a CAR-T, que é mais efetiva”. É com esse argumento do “custo-efetividade” que o A.C.Camargo procura vencer a resistência dos planos de saúde em cobrir a CAR-T. Além do valor, os planos querem evitar o desembolso único, numa só tacada. Mas a cobertura “em prestações” de outro tratamento pode ser desvantajosa.

Seja como for, com problemas ou não junto aos planos de saúde, a demanda pelo tratamento CAR-T no AC Camargo é grande. Todas as semanas, um ou dois casos são encaminhados para avaliação, dos quais 50% são considerados elegíveis pelo Tumor Board. São chamados aqueles que realmente têm chance de sucesso. “É muito frustrante para o paciente quando um tratamento inovador não funciona”, diz o Dr. Jayr “Ele cria uma expectativa tão grande que dificulta a volta ao tratamento convencional.”

Então, convém ficarmos todos ligados na palavrinha “quiméricos”, que compõe o acrônimo CAR-T. A quimera é uma besta-fera da mitologia grega, que tem aparência híbrida de dois ou mais animais, e capacidade de lançar fogo pelas narinas. Assim como é híbrido o linfócito T modificado e como ele toca o dragão em cima de célula cancerosa. Mas o termo “quimera” também tem o sentido de esperança, ou sonho que não é possível alcançar. Uma utopia. A CAR-T ainda é isso para muitos pacientes oncológicos. Um dia não será mais, mas hoje é.

Enquanto esse dia não chega, em que todos os cânceres serão tratados por células modificadas do próprio doente e somente uns raríssimos não serão curados, vamos confiar no que temos, os tratamentos convencionais de radioterapia, quimioterapia e imunoterapia. Vamos enfrentá-los com disciplina e coragem, para viver melhor cada momento da nossa vida. Afinal, sejamos doentes ou sãos, nunca se sabe o que o futuro nos reserva.

Vejam o Vamberto. Curou-se de um câncer terminal e mal teve tempo de festejar. Dois meses depois de encerrar o tratamento, ele morreu num acidente besta. Caiu em casa, bateu a cabeça no chão e se foi por traumatismo craniano grave.

O destino é acaso, a vida é tênue e cabe vivê-la com intensidade, amor e esperança. Sobretudo quando temos um indesejado dentro do corpo e lutamos para expulsá-lo. Vai-te, tinhoso! Vinde CAR-T! E vamos em frente.

Fonte: A.C Camargo

 

Você se lembra da notícia, certamente. Se já era oncológico à época, recorda especialmente a esperança que ela trouxe para todos os pacientes. Em 9 de setembro de 2019, no Hospital das Clínicas da de Ribeirão Preto, um aposentado de 62 anos em estágio terminal de câncer foi submetido a um tratamento inovador. Em menos de 20 dias, todos os seus tumores sumiram. Em 12 de outubro, ele teve alta, curado de um linfoma não-Hodgkin de células B. Não havia mais traço dele em seu organismo.

O milagre operado no mineiro Vamberto Luiz de Castro, esse tratamento fulminante que o salvou, atende pelo nome de Célula CAR-T. “CAR é um acrônimo em inglês para chimeric antigen receptor (em português, receptor quimérico de antígeno)”, explica uma detalhada página no portal do A.C.Camargo. “O T refere-se ao linfócito T, um tipo de célula do sistema imunológico que consegue reconhecer antígenos existentes na superfície celular de agentes externos ou internos infecciosos e de tumores”. Esse linfócito é modificado geneticamente, em laboratório, para produzir anticorpos que combatem os elementos invasores. Quem atua sobre o câncer, portanto, é o próprio sistema de defesa imunológica do paciente.

É a vitória definitiva contra o câncer! — entusiasmam-se todos que sabem da história. Sonham com uma cura tão rápida quanto a de Vamberto. Mas vamos devagar com a ampola. Por enquanto, o tratamento é altamente resolutivo para os cânceres de sangue, embora seja promissor para outros tipos, que ainda estão em pesquisa. Ele também é extremamente caro, o que ainda dificulta a sua massificação na rede privada de saúde e no SUS. Foi o que aprendi numa conversa com o Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas, a área do nosso hospital que já trabalha nessa fronteira do conhecimento oncológico.

Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas
Na terapia CART-T, a célula reprogramada em laboratório que é infundida no paciente precisa ter um alvo para funcionar. É um alvo terapêutico muito específico, um antígeno. No sangue, esse antígeno fica na superfície das células, é facilmente encontrável
Dr. Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas

“Já em outros tumores, o acesso ao alvo é mais difícil. Podem ser até vários alvos, que exigem tratamentos combinados. A pesquisa ainda não chegou até lá.”, complementa do doutor.

Até o momento, portanto, são elegíveis para tratamento com Células CAR-T somente esses tipos de tumor: 

  • Linfoma Não Hodgkin Difuso de Grandes Células B, 
  • Linfoma Folicular, 
  • Leucemia Linfoblástica Aguda B (LLA-B), 
  • Mieloma Múltiplo no cenário recidivado ou refratário da doença, 
  • Transplante de Medula para paciente com Mieloma Múltiplo, 
  • Transplante de Medula para paciente com Linfoma 
  • Transplante de Medula para paciente com Leucemia Aguda. 

Se você se reconhece nessa lista, os detalhes sobre como apresentar um caso para análise também estão aqui.

Desde 2022, o A.C.Camargo já fez 27 infusões de células CAR-T. Nove delas, em pacientes com mieloma múltiplo, que são estudados na Pesquisa Clínica. Outras 18 foram comerciais, em pacientes que tiveram o tratamento custeado por planos de saúde ou pagaram por ele. E é um dinheirão que ele custa, porque a reprogramação genética do linfócito T é quase toda feita no exterior, em laboratórios de alta complexidade. Apenas a Universidade de São Paulo e o Hospital Albert Einstein já fazem isso no Brasil, em escala limitada. O A.C.Camargo, ainda não. “É um processo muito complexo, que exige maquinário e estrutura muito específicos, de custo bem alto”, diz o Dr. Jayr. “Ainda não temos condições de fazer”.

Colher o material para iniciar o processo é simples. Espeta-se um cateter no braço do paciente e o fluxo sanguíneo passa por um equipamento de aférese, que separa os componentes do sangue. Daí para a frente, tudo fica mais complexo. As células T são enviadas para laboratórios nos Estados Unidos ou Europa. Lá elas são reprogramadas geneticamente e tornam-se um remédio pessoal e intransferível. Servem apenas àquele paciente de quem foram colhidas. O remédio então é inoculado e o restante do processo é esperar que células modificadas combatam as cancerígenas, até o fim da peleia.

O tempo do tratamento gira em torno de um ano. Os primeiros 4 meses são de luta para o plano de saúde autorizar, na embromation protocolar. Autorizado o procedimento, o material é coletado e enviado ao exterior. Enquanto isso, o paciente entra numa “terapia-ponte” de um a dois meses, com o objetivo de reduzir ao máximo as células cancerosas em seu sangue. “Se você consegue reduzir o volume da doença, os resultados da CAR-T são comprovadamente melhores”, explica o Dr. Jayr. Quando as células T voltam reprogramadas, são infundidas no paciente numa única aplicação. Faz-se uma primeira avaliação dos resultados em 3 meses e uma segunda em 6. Aí já não deve ter restado célula ruim para contar a história.

Mas, e o custo? 

O tratamento não é extremamente caro, um dinheirão? Se você for bilionário, vai nem olhar para a conta, vai pagar com pix. Milionário já faz cálculos para ver se dá para encarar. E os mortais comuns rezam para não serem glosados pelo plano de saúde. Porque as valentes e eficazes celulinhas CAR-T custam entre US$ 350 mil e US$ 400 mil para salvar o freguês, ou R$ 2 milhões a R$ 2,5 milhões.

“O valor é bem alto”, reconhece o Dr. Jayr. “Mas ele pode ser equivalente ao de outros tratamentos de imunoterapia, que não são feitos por infusão única, são continuados. A imunoterapia com anticorpo bi-específico, por exemplo, pode custar R$ 50 mil por sessão e a duração do tratamento é imprevisível, depende da resposta do paciente. No final das contas, ela pode sair tão cara quanto a CAR-T, que é mais efetiva”. É com esse argumento do “custo-efetividade” que o A.C.Camargo procura vencer a resistência dos planos de saúde em cobrir a CAR-T. Além do valor, os planos querem evitar o desembolso único, numa só tacada. Mas a cobertura “em prestações” de outro tratamento pode ser desvantajosa.

Seja como for, com problemas ou não junto aos planos de saúde, a demanda pelo tratamento CAR-T no AC Camargo é grande. Todas as semanas, um ou dois casos são encaminhados para avaliação, dos quais 50% são considerados elegíveis pelo Tumor Board. São chamados aqueles que realmente têm chance de sucesso. “É muito frustrante para o paciente quando um tratamento inovador não funciona”, diz o Dr. Jayr “Ele cria uma expectativa tão grande que dificulta a volta ao tratamento convencional.”

Então, convém ficarmos todos ligados na palavrinha “quiméricos”, que compõe o acrônimo CAR-T. A quimera é uma besta-fera da mitologia grega, que tem aparência híbrida de dois ou mais animais, e capacidade de lançar fogo pelas narinas. Assim como é híbrido o linfócito T modificado e como ele toca o dragão em cima de célula cancerosa. Mas o termo “quimera” também tem o sentido de esperança, ou sonho que não é possível alcançar. Uma utopia. A CAR-T ainda é isso para muitos pacientes oncológicos. Um dia não será mais, mas hoje é.

Enquanto esse dia não chega, em que todos os cânceres serão tratados por células modificadas do próprio doente e somente uns raríssimos não serão curados, vamos confiar no que temos, os tratamentos convencionais de radioterapia, quimioterapia e imunoterapia. Vamos enfrentá-los com disciplina e coragem, para viver melhor cada momento da nossa vida. Afinal, sejamos doentes ou sãos, nunca se sabe o que o futuro nos reserva.

Vejam o Vamberto. Curou-se de um câncer terminal e mal teve tempo de festejar. Dois meses depois de encerrar o tratamento, ele morreu num acidente besta. Caiu em casa, bateu a cabeça no chão e se foi por traumatismo craniano grave.

O destino é acaso, a vida é tênue e cabe vivê-la com intensidade, amor e esperança. Sobretudo quando temos um indesejado dentro do corpo e lutamos para expulsá-lo. Vai-te, tinhoso! Vinde CAR-T! E vamos em frente.

Fonte: A.C Camargo