A imagem do oncológico, ele é quem traça

A imagem do oncológico, ele é quem traça

Qual é a imagem do câncer? Que elemento visual o define melhor? Bom, depende, dirá você e eu mesmo digo. Se o assunto for Astrologia, a imagem será a do caranguejo, o símbolo clássico dos nascidos no signo de câncer. Já se for Biologia, a imagem será a de alguma bolinha diferente, no meio de outras todas iguais, desenhada ou fotografada num conjunto de células. E se o assunto for Medicina, será um laço de fita, de uma campanha de prevenção. Vermelho, a de seio. Amarelo, a infantil. Azul, a de próstata. E haja laço…

Mas quando os artistas querem mostrar o paciente de câncer, a sua figuração preferida nós conhecemos bem: é a pelada. Ou despelada, melhor dizendo.  É o lenço cobrindo toda a cabeça, na mulher. E a carequinha redonda, no homem. Nessa visão da coisa, câncer parece sinônimo de quimioterapia – essa bendita malvada que deixa o oncológico descabelado, na ação de curá-lo. Ela deixa muitos assim, sem dúvida, mas não todos. Até porque tem paciente que nem é tratado com quimioterapia. E entre os que são, há os que não perdem cabelo. Meu caso, por exemplo.

O que estou querendo dizer é que a imagem que fazem do oncológico não é, necessariamente, a mesma que nós mesmos temos. A autoimagem de qualquer paciente é pessoal e intransferível, obviamente. Cada qual será afetado pelo câncer e pelo tratamento de uma maneira muito singular, e é certo que a experiência ficará marcada em seu corpo. Mas cada um vai enxergar as marcas conforme o espelho mostrar, mesmo que ele não reflita nada visível. Porque as marcas podem estar na aparência ou na alma, na pele ou na mente, e vão afetar a pessoa de um jeito ou de outro. Com sorte, temporariamente. Senão, por mais tempo e mais a fundo. Talvez para sempre.

Autoimagem

É aí que autoimagem se mistura com autoestima e autoconfiança. E como se mistura! Que blend é esse! Eu brinco que é na sequela que mora a verdade. Mora, trabalha e atende. É no enfrentamento das consequências do câncer que a gente se testa realmente, no último limite. Sobretudo quando as sequelas são aparentes. Quando estão na cara do desfigurado, no membro amputado, na cicatriz que a operação deixou, no peito que a ablação levou. Porque o câncer é obstinado, vingativo, tinhoso e, muitas vezes, deixa lembranças quando é chutado para fora, como merece. Deixa um presente, com bilhetinho. “Eu vou, mas você não vai se esquecer de mim!”, ele avisa. Escreve na carne, para nada apagar a mensagem. E a freguesia que se vire para lidar com ela, pelo resto da vida.

Tenho “lugar de fala” nessa conversa porque vejo o assunto todos os dias no espelho, logo que acordo, e nos olhos piedosos de quem encontro pelo caminho. Não é fácil, confesso. Às vezes dá uma angústia e uma tristeza imensas perder a aparência normal. Cansa parecer um Shrek cubista, uma figura saída de um quadro de Picasso. Mas eu sempre penso que a alternativa a isso era pior. O câncer se foi, eu estou aqui. Ele já era, eu ainda sou. Mais feinho do que o tanto que já me cabia, ou não tão belo como jamais eu fui. Em todo caso, estou aí firme, de pé, caminhando, seguindo em frente.

A beleza improvável que ainda pudesse ter, nesta idade já considerável, eu sei que só posso cultivar do lado de dentro. Como fazer isso? Traduzindo o infortúnio em resignação, coragem e desapego. Em vez da vaidade impossível nas circunstâncias, a humildade necessária para encarar. É o que tento fazer, quando falo por aí da doença e quando escrevo aqui para você. Se o seu caso é semelhante ao meu, ou mesmo se é mais simples (tomara!), peço licença para sugerir que enfrente o problema com essas armas que descrevi.

O câncer nem sempre faz uma boa figura quando entra em cena. Mas a imagem do oncológico, quem desenha somos nós, cada um de nós. Podemos fazer bonito nisso.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.

 

Fonte: A.C Camargo

Qual é a imagem do câncer? Que elemento visual o define melhor? Bom, depende, dirá você e eu mesmo digo. Se o assunto for Astrologia, a imagem será a do caranguejo, o símbolo clássico dos nascidos no signo de câncer. Já se for Biologia, a imagem será a de alguma bolinha diferente, no meio de outras todas iguais, desenhada ou fotografada num conjunto de células. E se o assunto for Medicina, será um laço de fita, de uma campanha de prevenção. Vermelho, a de seio. Amarelo, a infantil. Azul, a de próstata. E haja laço…

Mas quando os artistas querem mostrar o paciente de câncer, a sua figuração preferida nós conhecemos bem: é a pelada. Ou despelada, melhor dizendo.  É o lenço cobrindo toda a cabeça, na mulher. E a carequinha redonda, no homem. Nessa visão da coisa, câncer parece sinônimo de quimioterapia – essa bendita malvada que deixa o oncológico descabelado, na ação de curá-lo. Ela deixa muitos assim, sem dúvida, mas não todos. Até porque tem paciente que nem é tratado com quimioterapia. E entre os que são, há os que não perdem cabelo. Meu caso, por exemplo.

O que estou querendo dizer é que a imagem que fazem do oncológico não é, necessariamente, a mesma que nós mesmos temos. A autoimagem de qualquer paciente é pessoal e intransferível, obviamente. Cada qual será afetado pelo câncer e pelo tratamento de uma maneira muito singular, e é certo que a experiência ficará marcada em seu corpo. Mas cada um vai enxergar as marcas conforme o espelho mostrar, mesmo que ele não reflita nada visível. Porque as marcas podem estar na aparência ou na alma, na pele ou na mente, e vão afetar a pessoa de um jeito ou de outro. Com sorte, temporariamente. Senão, por mais tempo e mais a fundo. Talvez para sempre.

Autoimagem

É aí que autoimagem se mistura com autoestima e autoconfiança. E como se mistura! Que blend é esse! Eu brinco que é na sequela que mora a verdade. Mora, trabalha e atende. É no enfrentamento das consequências do câncer que a gente se testa realmente, no último limite. Sobretudo quando as sequelas são aparentes. Quando estão na cara do desfigurado, no membro amputado, na cicatriz que a operação deixou, no peito que a ablação levou. Porque o câncer é obstinado, vingativo, tinhoso e, muitas vezes, deixa lembranças quando é chutado para fora, como merece. Deixa um presente, com bilhetinho. “Eu vou, mas você não vai se esquecer de mim!”, ele avisa. Escreve na carne, para nada apagar a mensagem. E a freguesia que se vire para lidar com ela, pelo resto da vida.

Tenho “lugar de fala” nessa conversa porque vejo o assunto todos os dias no espelho, logo que acordo, e nos olhos piedosos de quem encontro pelo caminho. Não é fácil, confesso. Às vezes dá uma angústia e uma tristeza imensas perder a aparência normal. Cansa parecer um Shrek cubista, uma figura saída de um quadro de Picasso. Mas eu sempre penso que a alternativa a isso era pior. O câncer se foi, eu estou aqui. Ele já era, eu ainda sou. Mais feinho do que o tanto que já me cabia, ou não tão belo como jamais eu fui. Em todo caso, estou aí firme, de pé, caminhando, seguindo em frente.

A beleza improvável que ainda pudesse ter, nesta idade já considerável, eu sei que só posso cultivar do lado de dentro. Como fazer isso? Traduzindo o infortúnio em resignação, coragem e desapego. Em vez da vaidade impossível nas circunstâncias, a humildade necessária para encarar. É o que tento fazer, quando falo por aí da doença e quando escrevo aqui para você. Se o seu caso é semelhante ao meu, ou mesmo se é mais simples (tomara!), peço licença para sugerir que enfrente o problema com essas armas que descrevi.

O câncer nem sempre faz uma boa figura quando entra em cena. Mas a imagem do oncológico, quem desenha somos nós, cada um de nós. Podemos fazer bonito nisso.

Sobre o autor

Gabriel Priolli é jornalista radicado em São Paulo. Trabalhou nos principais veículos de imprensa do país, dirigiu e criou canais de televisão, e foi professor na PUC, FAAP e FIAM. Hoje atua como consultor de comunicação.

 

Fonte: A.C Camargo